Resposta
escrita à entrevista realizada em 2009, no âmbito de trabalho académico sobre Implantes
Cocleares, realizado por Mariana Dinis, discente do curso de Tradução e
Interpretação em Língua Gestual Portuguesa – 1º ano, na ESE, Politécnico do
Porto
Idade: 45
Sexo: masculino
Profissão: Técnico bibliotecário
Habilitações literárias: 12.º ano (82/83)
Qual o tipo de surdez que possui?
Surdez bilateral, severa a profunda (neuro-sensorial).
Qual a causa da sua surdez?
Não identificada. Provavelmente devido a um
destes 2 episódios clínicos:
- Rebentamento do líquido amniótico (vulgo,
rebentamento das águas) no 7.º mês de gestação, e não ter tido logo assistência
médica na maternidade, tendo estado mais de 82 horas provavelmente a ingerir
elementos biologicamente tóxicos. Subsequentemente nasci como prematuro, com 7
meses.
- Efeito secundário da estreptomicina que me
foi aplicada após alguns meses de vida. Comprovadamente e com diagnóstico em
tempo útil, efeito comum desse medicamento, resultante em casos de surdez.
Tem mais
alguém surdo na família? Não. À priori,
por não terem existido antecedente(s) que incida(m) em “componente genética”.
Alguma vez se sentiu prejudicado por ser
surdo?
Diria antes, inibido! Fosse ao telefone, nas
aulas do ensino regular, na catequese, na missa, etc.
Quais as suas principais dificuldades ao longo
da vida (devido à surdez)?
Percepção e/ou compreensão do discurso verbal,
no convívio com colegas e amigos, nas aulas do ensino regular, excepto no seio
familiar, que tinha e teve sempre em conta a minha limitada percepção auditiva.
Ausência total do uso de telefone até ser implantado.
Socializava parcialmente em grupo, isto é, a
comunicação baseava-se essencialmente, em modo “one to one” (ou perto e de
frente perante um orador que tivesse boa dicção). Quando tal não era possível,
devido a conversas cruzadas, limitava-me a não perguntar ou intervir, para não
ser considerado chato ou aborrecido.
Teve apoio da família e dos amigos?
Dum ou outro amigo especial que tivesse boa dicção
e voluntariedade, incluindo companheiro de carteira, no ensino regular, que
estivesse à minha esquerda, para poder passar os necessários apontamentos
escolares.
Toda a família, sem excepção, foi compreensiva
e respeitadora, nomeadamente pais, avós, tios (maternos e paternos) e primos.
Com grande destaque e especial incidência na minha mãe que foi a principal
terapeuta da fala, a tempo inteiro, que tendo sido pragmática e perseverante, e
com base no que apreendia nas sessões de terapia da fala, aplicou-me a terapia
equivalente à que tive com terapeuta da fala, durante a infância. E ao mesmo
tempo nunca deixou de fazer também as devidas correcções linguísticas
necessárias.
Também tive uma devota professora primária,
por sinal minha vizinha, e oficialmente minha professora no ensino regular, que
me deu individualmente bons alicerces para as “aquisições” académicas presentes
e futuras… As aulas no ensino regular eram preparadas, na(s) véspera(s).
Tem conhecimento em Língua Gestual Portuguesa?
Não domino a LGP, dado que quando foi
diagnosticada a minha surdez, aos 4 anos, a minha mãe foi aconselhada a não
seguir esse caminho. Fui oralizado a partir dos 4/5 anos e concomitantemente
iniciei a minha vida académica aos 6 anos de idade, sem recurso a LGP.
Apenas aos 41 anos de idade, frequentei um
mini-curso de LGP1, por mera curiosidade. Apenas sei o alfabeto e pouco mais.
Quando é que decidiu optar pelo implante
coclear?
Em 2006, após um processo algo sinuoso, o qual
abaixo descrevo:
- Finais da década de noventa: tinha uma ideia
muitíssimo abstracta, com alguma informação retida de curta reportagem de
noticiário.
- 2000/2001: fui virtualmente informado
(através da Internet) que os implantes cocleares eram estritamente prioritários
para as crianças, logo pressupondo eu, que os melhores resultados obter-se-iam
a partir dessa tenra idade.
- 2005:
Apenas por mera curiosidade, frequentei curso de LGP1, no qual estiveram como
formandas, "agentes" da educação especial (terapeutas, educadoras
especializadas). Nesta formação ouvi opiniões muito negativas acerca dos implantes
cocleares: que nos implantes estavam subjacentes interesses médicos, que as
crianças tinham problemas nas brincadeiras devido a "campos
magnéticos", tamanho do controlador (vim a saber mais tarde que este era
dos implantes cocleares mais antigos). No bom sentido e acreditando piamente
nesses pressupostos, senti-me encaminhado a não investigar e/ou explorar a área
dos implantes cocleares.
- Início 2006: Devido a pressões familiares
(esposa e mãe), senti-me incentivado a explorar na Internet a temática dos
implantes cocleares e posteriormente, numa clínica privada, a hipótese de vir a
ser implantado.
- Durante o ano de 2006: fiz exames tais como Ressonâncias
Magnéticas e TAC e explorei na Internet inúmeros testemunhos de implantados.
Clinicamente fui considerado candidato anatómico ao IC.
- Agosto de 2006: Conheci pessoalmente um
bi-implantado surdo-cego. Fiquei fascinado com a sua pessoa, com a respectiva
reabilitação e sucesso.
- Finais de 2006 : fui às primeiras consultas
e exames em Coimbra. A intervenção cirúrgica foi feita em Dezembro.
Porque é que optou pelo implante coclear?
A resposta a esta pergunta também está
implícita na resposta à pergunta imediatamente anterior a esta, pois ambas as
questões estão intimamente relacionadas.
Como complemento, acrescento que por ter
verificado, segundos testemunhos disponibilizados na Internet, e testemunho
presencial do referido surdo-cego, que as próteses convencionais (retroauriculares)
não permitem atingir o “patamar” de audição que o implante coclear por si só,
permite.
Sente-se bem, implantado?
Depois de activado o implante coclear (IC)
senti e tive a clara noção da diferença tecnológica entre as próteses
retro-auriculares e o IC: enquanto as próteses retro-auriculares AMPLIFICAM
restritivamente os resíduos auditivos (depois de muito treino de reconhecimento
dos sons), o IC permitiu melhor e superior capacitação auditiva, através da
ESTIMULAÇÂO eléctrica. Com esta diferença por mim percepcionada, se bem que de
forma empírica, e ao mesmo tempo ter adquirido superior ganho auditivo, através
do IC, a estética é e foi relegada para um plano secundaríssimo.
Como foi a recuperação e a adaptação?
Com o IC o meu universo sonoro alargou-se
ainda mais e de forma sincrética[1]
(entre o primeiro e segundo mês), possibilitando por exemplo ouvir com mais nitidez
ocorrer da água da torneira, a chuva que "bate" intermitentemente no
carro, sons produzidos pelo rasgar do papel, do amarfanhar do saco de plástico;
bem como o barulho do arrastar dos chinelos que instintivamente passou a ser
evitado. Para além de tentar "evitar" situações acusticamente
incómodas, supostamente não só para mim, também passei a ter um cuidado mais
minucioso com o manuseamento do talher no prato... Passei portanto a ter outra
sensibilidade auditiva e paulatinamente a sentir e compreender a "poluição
sonora" de que certos ouvintes "padecem" no seu dia-a-dia. Daí
que após activação, nos primeiros meses, o meu cérebro, sentiu-se atordoado com
a intensidade dos sons durante o dia, chegando a tirar o processador do IC, mal
chegasse a casa para lhe dar descanso… Mesmo assim, desde então, usei-o sempre
diariamente, partindo sempre do princípio que valeria a pena “lutar” novamente
(tal como na infância e adolescência), se bem que noutros “moldes”… Actualmente
o meu cérebro já suporta melhor essa situação, a ponto de tirar o processador
do IC, apenas quando me deito à noite.
Outra particularidade, que para mim tem
bastante significado: quando se acaba a pilha do lado direito (prótese digital
- retro auricular.) por vezes nem me apercebo, dada a grande compensação que o
lado esquerdo implantado proporciona...
E agora? Considera-se uma pessoa feliz e
realizada?
Em termos de ganho auditivo, sinto-me mais feliz
e perto duma realização quase total, pois só de pensar que actualmente
participo em conversas de grupo, com mais confiança e segurança do que antes de
ter sido implantado, é e foi realmente mais uma grande “conquista saborosa” na
minha vida.
Referi em realização quase total, pois com a
evolução da tecnologia, na área do IC, tenho esperança de vir a reconhecer de
imediato e integralmente a letra das músicas, mas esta questão tem a ver
também, creio eu, com as “estruturas” e “conteúdos” da memória auditiva que
foram criados e desenvolvidos ao longo da vida.
[Consulte aqui a versão integral]
[Consulte aqui a versão integral]
[1] Sincretismo
- fenómeno psicológico que caracteriza uma fase do desenvolvimento da criança
durante a qual ela percepciona os objectos no seu conjunto, sem os
individualizar, só conseguindo distinguir os elementos do todo num período mais
avançado do seu desenvolvimento mental (fonte -
http://www.priberam.pt/dlpo/
)
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