CADASTRO DE
SURDO PRÉ-LINGUISTA REABILITADO
Nome – Paulo Manuel Mata Jorge
Data de Nascimento – 03/11/1964
Data do diagnóstico correcto de surdez –
1969; surdez (à nascença) bilateral neurosensorial , severa (grau 2) a profunda
(grau 1)
Data do início de intervenção – 1969
(aulas de fonética: aprendizagem da leitura labial e da fala)
Data de aparelhamento adequado – 1973 - com
amplificador da marca Peters, para as aulas de fonética e ensino regular, tendo
assim conseguido melhoria significativa no português falado e feedback auditivo
(própria voz), devido a melhor captação/percepção auditiva e também por
inerência do treino intenso realizado no quotidiano
Período de utilização de prótese dupla
retroauricular – 1977/2006
De 2007 à actualidade – audição bimodal (Implante Coclear e prótese retroauricular)
Como se pode depreender pelo percurso reabilitacional (cadastro supra),
após activação do Implante Coclear, foi desenvolvida nova intervenção de cariz
bem diferente da realizada durante a infância e parte da adolescência
(aquisição da oralidade com gradual aperfeiçoamento). No entanto, importa
realçar que apesar da 1.ª intervenção não ter sido precoce, foi fundamental
para a estimulação cerebral, a ponto de o cérebro ter sido “preparado” para,
mais tarde (2007), poder receber com a necessária “amplitude”, os sinais
eléctricos emitidos pelo processador de som do IC. Obviamente que durante a 1.ª
intervenção, à época em causa (década de 70), nada faria prever nova
intervenção coadjuvada pela utilização do IC.
É precisamente com o recurso ao IC, disponível e activo, que entra em
cena o terapeuta Pedro Brás para a 2.ª intervenção (2007), cujas expectativas
consubstanciaram-se essencialmente em 2 premissas:
A)
Maior precisão na identificação de sons
diferenciados
B)
Percepção do discurso verbal sem recurso
complementar da Leitura Labial
Relativamente a A),
foi desenvolvido o treino de identificação em sons gravados com a respectiva
correspondência individualizada em pequenas fichas ilustrativas.
Tendo em conta que um ouvinte (totalmente são) perante a semelhança de
um mesmo som, gravado versus natural,
cuja diferença é bem detectada e definida por este, no caso do paciente com IC,
sem o treino referido em A), terá pelo menos, dificuldade em identificar (sem
recurso a qualquer visualização respectiva) correctamente sons gravados estritamente
diferentes. Por exemplo: o som do teclar das teclas de computador, que sendo na
gravação, ritmado, não o identificava correctamente, confundindo-o com o
galopar do cavalo (ou algo parecido com um trotar acelerado). Ora com o
simultâneo processo de visualização de pequenas fichas ilustrativas diferentes,
foi-me fornecida “pista” para que o meu cérebro, na vertente auditiva, se
“especializasse” nessa complexa combinação de sinais eléctricos transmitidos
pelo processador de som do IC, e concomitantemente acrescentando mais
informação sonora, “catalogada” na minha memória auditiva.
Passando à B): foram feitos exercícios em que consistiram na repetição oral, depois de percepcionados (mal ou bem) de fonte oral (terapeuta Pedro
Brás), sem Leitura Labial, nomeadamente de:
- Vogais e consoantes
- Frases não
intuitivas
No caso dos
fonemas, apenas houve inicialmente trocas nas respectivas respostas, nos
fonemas que incluíam o “p” “t”, “b”, “d”
(Pedro acho q foram estas consoantes), ao que após algumas sessões, incidindo
no que faltava acertar, paulatinamente a respectiva percepção/resposta foi
sendo cada vez mais optimizada.
Ao invés duma criança
surda a ser reabilitada, possuidora de um vocabulário em fase de “construção”, no
meu caso (aos 42 anos), na terapia com Pedro Brás, a enunciação das frases foi
pautada pela inverosimilidade, para na respectiva percepção não ser facilmente
intuída por mim, uma vez que com vocabulário adquirido, potencia-se a facilidade
de interpretação, mesmo em exemplos em que não fosse integralmente percebida a
frase. Este exercício com frases, foi executado sempre na ausência do
complemento da Leitura Labial, dado que foram sensivelmente 30 anos (dos 9 aos
42 anos de idade) a ouvir tecnologicamente e em simultânea percepção do
discurso oral através da “visão auditiva” (LL), sempre num estrito regime de
complementaridade com o então disponível apoio tecnológico.
Para inverter o processo terapêutico de outrora (não inclusão de LL), com
tal intrincado facto (retrospectivo) na situação de implantado, depreendi que a
memória auditiva do ouvinte (totalmente são) e também do surdo pós-linguista, têm características funcionais diferentes das de
um surdo pré-linguista, e não obstante, foi nesta última incidência que se
evidenciou a positiva interacção entre esta última técnica terapêutica e o uso
do IC (sem me ter "socorrido" à LL).
Por fim, resta-me referir que não foi de somenos importância, a capacidade
exequível do terapeuta Pedro Brás no contacto visual (quando necessário,
exceptuando nos exercícios sem LL) articulado com a boa dicção e o tom informal,
que demonstrou nas sessões administradas, tendo assim, permitido de forma
descontraída um excelente feedback entre paciente e terapeuta.