sábado, 1 de maio de 2010

Guião p/a tertúlia sobre reabilitação auditiva em 02/03/10, na ESTS-IPP, 3.º ano do curso de Terapia da Fala

- Agradecer ao Dr. Pedro Brás o convite, e também a presença dos seus alunos
- Exibir meus audiogramas: sem próteses (o 1.º audiograma) e ganho auditivo com próteses convencionais (retro-auriculares)
- A minha 1.ª terapeuta da fala (nesse tempo designava-se prof.ª de fonética) convidou minha mãe, há cerca de 3 décadas, para relatar em público o meu caso. Minha mãe recusou, tendo bastado dizer-lhe, que o mais importante foi o resultado em si.

Posto isto, o “resultado” encontra-se perante vós, pela 1.ª vez em “tertúlia académica”, e creio eu, que sem pretender algum protagonismo, é meu vivo desejo que o meu testemunho e opinião sejam percecionados como uma modesta achega na vossa área de estudo, com vista a um maior aprofundamento e reflexão, e por fim, dar continuidade ao debate profícuo, felizmente não isento de controvérsia, sobre a reabilitação auditiva.

- Exibir o amplificador comprado em Inglaterra, e referir que a partir do uso deste recurso tecnológico, o meu universo sonoro alargou-se, melhorando a audição envolvente (receção dos sons) e o feed-back auditivo (própria voz), e subsequentemente conseguindo paulatinamente, melhor dicção.

A minha reabilitação, iniciada por volta dos 5 anos, teve um ponto de viragem, aos 9 anos de idade, com o uso regular deste amplificador, quer nas aulas de fonética, quer no ensino regular, tendo sido usado na 4.ª classe (1973), ciclo preparatório e por último no 7.º ano de escolaridade (Liceu). Portanto, como podem ver, a odisseia de Londres, em 1973, no tempo do “Portugal profundo”, não foi em vão… E no contexto de reabilitação auditiva, em surdez severa a profunda, foi um dos marcos indeléveis da minha vida.
- Importa também ressalvar, que no meu caso, a simbiose entre a oralização perserverante e a exigente docência (ou escolarização) ministrada pela minha devota professora do ensino primário, foi determinante e importante no decurso da minha vida académica, cultural e mais tarde, profissional.
- Por outro lado, só há poucos anos é que tive uma noção mais precisa do alcance da minha reabilitação, creio eu, devido à cultura de ouvinte que fui adquirindo desde criança, e com a definição simples e abrangente, que me foi transmitida por uma tia minha, quando eu era adolescente: semi-surdo. Portanto os termos profundo e severo, não foram incluídos na definição da minha surdez, em grande parte da minha vida.

Vantagens adquiridas com o uso do implante coclear (a partir de 2007):
Para além das vantagens proporcionadas pelo IC que estão mencionadas na entrevista-testemunho, realço as seguintes:
- Passei a ouvir a música de fundo em zona de restauração (centro comercial), não obstante o barulho envolvente
- Na mesma situação, foi-me possível ouvir criança a chorar por perto
- Indivíduos com dicção fechada: antes com as próteses convencionais e
mesmo com a tentativa de leitura labial, não conseguia perceber o seu
discurso oral
- O mesmo se passava com pessoas de cor, devido aos lábios carnudos
e sobressaírem os dentes, devido ao contraste. Com o devido respeito,
espero que tal não seja interpretado, como ofensivo.

Tenho esperança de:
- Perceber integralmente letra de canções
- Perceber integralmente discurso verbal, sem leitura labial
No entanto se não for para o meu tempo, estes objetivos serão indubitavelmente, otimizados em anos vindouros.

Bilinguismo ou monolinguismo (gestual)? (Apenas um ensaio para ser devidamente analisado…)
A língua gestual com um vocabulário, gramática e semântica próprias e sendo expressiva e emotiva, tornam-na, por si só, num processo comunicacional fascinante e porque não dizê-lo: cativante! E mais ainda na minha condição de surdo, em que o “campo visual” sempre prevaleceu sobre o “campo sonoro”, independentemente de eu ser oralista puro.
Foram por essas razões que em 2005, frequentei um mini-curso de LGP1, e desde então, através do contacto presencial e virtual (internet) com alguns surdos puramente gestualistas e também bilinguistas, constatei e constato a repercussão restritiva que a LG causa no seu português escrito e falado. Por essa razão, e pelo subsequente iletrismo e iliteracia patentes na comunidade surda em geral, tenho manifestado e manifesto a minha profunda tristeza.

Portanto coloca-se a questão, por sinal, controversa:
A LG deverá ser adoptada, na infância, como língua nativa ou 2.ª língua?
Na minha modesta opinião, e apesar de não ter aprendido LG, e conhecer pessoalmente uma surda profunda à nascença, oralista e com cultura de ouvinte; e eu ser surdo com o grau de severo a profundo, considero que nos primeiros anos de vida, a criança surda (profunda e/ou severa), deve ou pode aprender LG, para adquirir mais facilmente meio de comunicação, uma vez que por natureza, o ser humano é um ser gregário. Com esta aquisição, a criança poderá minimamente socializar-se com o mundo que a rodeia, apesar de este ser restrito, dado a comunidade ouvinte possuir uma cultura e comunicação verbal, que por si são dominantes, na sociedade em que vivemos.
Mas é esse mundo restrito, nomeadamente agentes da educação, família e amigos, todos habilitados com a LG, que evitam e evitarão que a criança surda fique nos primeiros tempos de infância, à sua mercê, isolada.
No entanto, numa fase mais avançada (pré-escolar em diante), já com o domínio integral da LG, há que ter em conta que a manter-se esse domínio comportam-se riscos, causadores das lacunas comunicacionais no português falado e escrito, e também como potenciais agravantes que contribuem para o iletrismo e iliteracia.
Acomodamento e negação em relação à aprendizagem da oralidade são também os potenciais riscos que terão como consequência, no futuro, em fase adulta, a sócio-integração exclusiva em comunidades de surdos gestualistas.
Portanto acautelar e suprimir esses riscos, através da tentativa de oralização, dependerá destes principais factores: acompanhamento familiar (encarregado de educação) com terapeuta da fala (*), e as aptidões inatas do intelecto da criança. Assim, otimizando este processo preventivo, que não é de todo linear, a criança torna-se bilinguista, passando a ter esta mais-valia que possibilitará, pela vida fora, estabelecer a ponte comunicacional entre os 2 mundos: sociedade em geral (surdos oralistas inclusive) e surdos gestualistas.
Referi a ponte entre os 2 mundos, baseando no facto de conhecer 2 indivíduos surdos gestualistas, com oralidade reduzida, que em crianças, estiveram na mesma instituição de ensino, tendo como língua “oficial” a LGP. Atualmente, estes indivíduos, na casa dos 30 anos, têm realizações e direções de vida opostas: um que pretende inserir-se no mundo do trabalho em geral, apesar das dificuldades fónicas inerentes, afirma querer, atualmente, verbalizar o mais possível a sua comunicação, em detrimento da sua língua nativa, gestual. O outro indivíduo, como se trata de uma formadora de língua gestual, encontra-se no seu limbo, não se importando das limitações e barreiras que essa forma de estar lhe acarreta, perante a sociedade maioritariamente ouvinte. Como tudo na vida adulta, em geral, há opções e escolhas, se bem que teremos também de ter em conta, os condicionalismos, que vão desde a surdez, tipo de reabilitação, e vocações do indivíduo em causa.

(*) Importa realçar também o fator “humildade” por parte do educador (mãe ou encarregado de educação) na relação com o terapeuta.


À laia de conclusão:

Tal como na criança ouvinte, também na criança surda (independentemente do grau de surdez) existe uma fase de estádios de desenvolvimento psico-sociais, em espaços devidamente adequados, como a escola e o lar. No caso da criança surda a ser reabilitada, esses espaços terão de ter competências ainda mais específicas e exigentes, tendo bem presente o binómio desenvolvimento/reabilitação, para que no futuro, o indivíduo minimamente reabilitado exerça a sua cidadania, com a resiliência adquirida e necessária em momentos cruciais da vida, na sociedade civil em que esteja integrado.
Ressalve-se que, nesta área de reabilitação auditiva, cada caso é um caso! E que nesta análise, sou apenas um mero observador, que procurou formar a sua opinião pessoal, a partir do seu caso e também de amigos e colegas com resultados de reabilitação ligeiramente diferentes.

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