- Exibir meus audiogramas: sem próteses (o
1.º audiograma) e ganho auditivo com próteses convencionais (retro-auriculares)
-
A minha 1.ª terapeuta da fala (nesse tempo designava-se prof.ª de fonética)
convidou minha mãe, há cerca de 3 décadas, para relatar em público o meu caso.
Minha mãe recusou, tendo bastado dizer-lhe, que o mais importante foi o
resultado em si.
Posto
isto, o “resultado” encontra-se perante vós, pela 1.ª vez em “tertúlia
académica”, e creio eu, que sem pretender algum protagonismo, é meu vivo desejo
que o meu testemunho e opinião sejam percecionados como uma modesta achega na
vossa área de estudo, com vista a um maior aprofundamento e reflexão, e por
fim, dar continuidade ao debate profícuo, felizmente não isento de
controvérsia, sobre a reabilitação auditiva.
-
Exibir o amplificador comprado em Inglaterra, e referir que a partir do uso
deste recurso tecnológico, o meu universo sonoro alargou-se, melhorando a
audição envolvente (receção dos sons) e o feed-back auditivo (própria voz), e
subsequentemente conseguindo paulatinamente, melhor dicção.
A
minha reabilitação, iniciada por volta dos 5 anos, teve um ponto de viragem,
aos 9 anos de idade, com o uso regular deste amplificador, quer nas aulas de
fonética, quer no ensino regular, tendo sido usado na 4.ª classe (1973), ciclo
preparatório e por último no 7.º ano de escolaridade (Liceu). Portanto, como
podem ver, a odisseia de Londres, em 1973, no tempo do “Portugal profundo”, não
foi em vão… E no contexto de reabilitação auditiva, em surdez severa a
profunda, foi um dos marcos indeléveis da minha vida.
-
Importa também ressalvar, que no meu caso, a simbiose entre a oralização perserverante
e a exigente docência (ou escolarização) ministrada pela minha devota
professora do ensino primário, foi determinante e importante no decurso da
minha vida académica, cultural e mais tarde, profissional.
-
Por outro lado, só há poucos anos é que tive uma noção mais precisa do alcance
da minha reabilitação, creio eu, devido à cultura de ouvinte que fui adquirindo
desde criança, e com a definição simples e abrangente, que me foi transmitida
por uma tia minha, quando eu era adolescente: semi-surdo. Portanto os termos
profundo e severo, não foram incluídos na definição da minha surdez, em grande
parte da minha vida.
Vantagens adquiridas com o uso do implante coclear (a partir de 2007):
Para
além das vantagens proporcionadas pelo IC que estão mencionadas na
entrevista-testemunho, realço as seguintes:
-
Passei a ouvir a música de fundo em zona de restauração (centro comercial), não
obstante o barulho envolvente
-
Na mesma situação, foi-me possível ouvir criança a chorar por perto
-
Indivíduos com dicção fechada: antes com as próteses convencionais e
mesmo
com a tentativa de leitura labial, não conseguia perceber o seu
discurso
oral
-
O mesmo se passava com pessoas de cor, devido aos lábios carnudos
e
sobressaírem os dentes, devido ao contraste. Com o devido respeito,
espero
que tal não seja interpretado, como ofensivo.
Tenho esperança de:
-
Perceber integralmente letra de canções
-
Perceber integralmente discurso verbal, sem leitura labial
No
entanto se não for para o meu tempo, estes objetivos serão indubitavelmente, otimizados
em anos vindouros.
Bilinguismo
ou monolinguismo (gestual)? (Apenas um ensaio para ser devidamente analisado…)
A
língua gestual com um vocabulário, gramática e semântica próprias e sendo
expressiva e emotiva, tornam-na, por si só, num processo comunicacional
fascinante e porque não dizê-lo: cativante! E mais ainda na minha condição de
surdo, em que o “campo visual” sempre prevaleceu sobre o “campo sonoro”,
independentemente de eu ser oralista puro.
Foram
por essas razões que em 2005, frequentei um mini-curso de LGP1, e desde então,
através do contacto presencial e virtual (internet) com alguns surdos puramente
gestualistas e também bilinguistas, constatei e constato a repercussão
restritiva que a LG causa no seu português escrito e falado. Por essa razão, e
pelo subsequente iletrismo e iliteracia patentes na comunidade surda em geral,
tenho manifestado e manifesto a minha profunda tristeza.
Portanto
coloca-se a questão, por sinal, controversa:
A
LG deverá ser adoptada, na infância, como língua nativa ou 2.ª língua?
Na
minha modesta opinião, e apesar de não ter aprendido LG, e conhecer
pessoalmente uma surda profunda à nascença, oralista e com cultura de ouvinte;
e eu ser surdo com o grau de severo a profundo, considero que nos primeiros
anos de vida, a criança surda (profunda e/ou severa), deve ou pode aprender LG,
para adquirir mais facilmente meio de comunicação, uma vez que por natureza, o
ser humano é um ser gregário. Com esta aquisição, a criança poderá minimamente
socializar-se com o mundo que a rodeia, apesar de este ser restrito, dado a
comunidade ouvinte possuir uma cultura e comunicação verbal, que por si são dominantes,
na sociedade em que vivemos.
Mas
é esse mundo restrito, nomeadamente agentes da educação, família e amigos,
todos habilitados com a LG, que evitam e evitarão que a criança surda fique nos
primeiros tempos de infância, à sua mercê, isolada.
No
entanto, numa fase mais avançada (pré-escolar em diante), já com o domínio
integral da LG, há que ter em conta que a manter-se esse domínio comportam-se
riscos, causadores das lacunas comunicacionais no português falado e escrito, e
também como potenciais agravantes que contribuem para o iletrismo e iliteracia.
Acomodamento
e negação em relação à aprendizagem da oralidade são também os potenciais
riscos que terão como consequência, no futuro, em fase adulta, a
sócio-integração exclusiva em comunidades de surdos gestualistas.
Portanto
acautelar e suprimir esses riscos, através da tentativa de oralização,
dependerá destes principais factores: acompanhamento familiar (encarregado de
educação) com terapeuta da fala (*), e as aptidões inatas do intelecto da
criança. Assim, otimizando este processo preventivo, que não é de todo linear,
a criança torna-se bilinguista, passando a ter esta mais-valia que
possibilitará, pela vida fora, estabelecer a ponte comunicacional entre os 2
mundos: sociedade em geral (surdos oralistas inclusive) e surdos gestualistas.
Referi
a ponte entre os 2 mundos, baseando no facto de conhecer 2 indivíduos surdos
gestualistas, com oralidade reduzida, que em crianças, estiveram na mesma
instituição de ensino, tendo como língua “oficial” a LGP. Atualmente, estes
indivíduos, na casa dos 30 anos, têm realizações e direções de vida opostas: um
que pretende inserir-se no mundo do trabalho em geral, apesar das dificuldades
fónicas inerentes, afirma querer, atualmente, verbalizar o mais possível a sua
comunicação, em detrimento da sua língua nativa, gestual. O outro indivíduo,
como se trata de uma formadora de língua gestual, encontra-se no seu limbo, não
se importando das limitações e barreiras que essa forma de estar lhe acarreta,
perante a sociedade maioritariamente ouvinte. Como tudo na vida adulta, em
geral, há opções e escolhas, se bem que teremos também de ter em conta, os
condicionalismos, que vão desde a surdez, tipo de reabilitação, e vocações do
indivíduo em causa.
(*)
Importa realçar também o fator “humildade” por parte do educador (mãe ou
encarregado de educação) na relação com o terapeuta.
À
laia de conclusão:
Tal
como na criança ouvinte, também na criança surda (independentemente do grau de
surdez) existe uma fase de estádios de desenvolvimento psico-sociais, em
espaços devidamente adequados, como a escola e o lar. No caso da criança surda
a ser reabilitada, esses espaços terão de ter competências ainda mais
específicas e exigentes, tendo bem presente o binómio desenvolvimento/reabilitação,
para que no futuro, o indivíduo minimamente reabilitado exerça a sua cidadania,
com a resiliência adquirida e necessária em momentos cruciais da vida, na
sociedade civil em que esteja integrado.
Ressalve-se que, nesta área de reabilitação auditiva, cada
caso é um caso! E que nesta análise, sou apenas um mero observador, que
procurou formar a sua opinião pessoal, a partir do seu caso e também de amigos
e colegas com resultados de reabilitação ligeiramente diferentes.
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