segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Terapia de percepção auditiva, pós-activação do Implante Coclear


CADASTRO DE SURDO PRÉ-LINGUISTA REABILITADO
Nome – Paulo Manuel  Mata Jorge
Data de Nascimento – 03/11/1964
Data do diagnóstico correcto de surdez – 1969; surdez (à nascença) bilateral neurosensorial , severa (grau 2) a profunda (grau 1)
Data do início de intervenção – 1969 (aulas de fonética: aprendizagem da leitura labial e da fala)
Data de aparelhamento adequado – 1973 - com amplificador da marca Peters, para as aulas de fonética e ensino regular, tendo assim conseguido melhoria significativa no português falado e feedback auditivo (própria voz), devido a melhor captação/percepção auditiva e também por inerência do treino intenso realizado no quotidiano
Período de utilização de prótese dupla retroauricular – 1977/2006
De 2007 à actualidade – audição bimodal  (Implante Coclear e prótese retroauricular)

Como se pode depreender pelo percurso reabilitacional (cadastro supra), após activação do Implante Coclear, foi desenvolvida nova intervenção de cariz bem diferente da realizada durante a infância e parte da adolescência (aquisição da oralidade com gradual aperfeiçoamento). No entanto, importa realçar que apesar da 1.ª intervenção não ter sido precoce, foi fundamental para a estimulação cerebral, a ponto de o cérebro ter sido “preparado” para, mais tarde (2007), poder receber com a necessária “amplitude”, os sinais eléctricos emitidos pelo processador de som do IC. Obviamente que durante a 1.ª intervenção, à época em causa (década de 70), nada faria prever nova intervenção coadjuvada pela utilização do IC.
É precisamente com o recurso ao IC, disponível e activo, que entra em cena o terapeuta Pedro Brás para a 2.ª intervenção (2007), cujas expectativas consubstanciaram-se essencialmente em 2 premissas:
A)     Maior precisão na identificação de sons diferenciados
B)      Percepção do discurso verbal sem recurso complementar da Leitura Labial
Relativamente a A), foi desenvolvido o treino de identificação em sons gravados com a respectiva correspondência individualizada em pequenas fichas ilustrativas.
Tendo em conta que um ouvinte (totalmente são) perante a semelhança de um mesmo som, gravado versus natural, cuja diferença é bem detectada e definida por este, no caso do paciente com IC, sem o treino referido em A), terá pelo menos, dificuldade em identificar (sem recurso a qualquer visualização respectiva) correctamente sons gravados estritamente diferentes. Por exemplo: o som do teclar das teclas de computador, que sendo na gravação, ritmado, não o identificava correctamente, confundindo-o com o galopar do cavalo (ou algo parecido com um trotar acelerado). Ora com o simultâneo processo de visualização de pequenas fichas ilustrativas diferentes, foi-me fornecida “pista” para que o meu cérebro, na vertente auditiva, se “especializasse” nessa complexa combinação de sinais eléctricos transmitidos pelo processador de som do IC, e concomitantemente acrescentando mais informação sonora, “catalogada” na minha memória auditiva.

Passando à B): foram feitos exercícios em que consistiram na repetição oral, depois de percepcionados (mal ou bem) de fonte oral (terapeuta Pedro Brás), sem Leitura Labial, nomeadamente de:
                - Vogais e consoantes
                - Frases não intuitivas
No caso dos fonemas, apenas houve inicialmente trocas nas respectivas respostas, nos fonemas que incluíam o “p”  “t”,  “b”,  “d” (Pedro acho q foram estas consoantes), ao que após algumas sessões, incidindo no que faltava acertar, paulatinamente a respectiva percepção/resposta foi sendo cada vez mais optimizada.
Ao invés duma criança surda a ser reabilitada, possuidora de um vocabulário em fase de “construção”, no meu caso (aos 42 anos), na terapia com Pedro Brás, a enunciação das frases foi pautada pela inverosimilidade, para na respectiva percepção não ser facilmente intuída por mim, uma vez que com vocabulário adquirido, potencia-se a facilidade de interpretação, mesmo em exemplos em que não fosse integralmente percebida a frase. Este exercício com frases, foi executado sempre na ausência do complemento da Leitura Labial, dado que foram sensivelmente 30 anos (dos 9 aos 42 anos de idade) a ouvir tecnologicamente e em simultânea percepção do discurso oral através da “visão auditiva” (LL), sempre num estrito regime de complementaridade com o então disponível apoio tecnológico.
Para inverter o processo terapêutico de outrora (não inclusão de LL), com tal intrincado facto (retrospectivo) na situação de implantado, depreendi que a memória auditiva do ouvinte (totalmente são) e também do surdo pós-linguista, têm características funcionais diferentes das de um surdo pré-linguista, e não obstante, foi nesta última incidência que se evidenciou a positiva interacção entre esta última técnica terapêutica e o uso do IC (sem me ter "socorrido" à LL).

Por fim, resta-me referir que não foi de somenos importância, a capacidade exequível do terapeuta Pedro Brás no contacto visual (quando necessário, exceptuando nos exercícios sem LL) articulado com a boa dicção e o tom informal, que demonstrou nas sessões administradas, tendo assim, permitido de forma descontraída um excelente feedback entre paciente e terapeuta.